Degradados filhos de Eva

06/02/2010 por cronicasdeti

Definitivamente não consigo mais classificar o seriado The Office como comédia. Quando assisto a um episódio, instantânea e naturalmente faço alguma associação como o meu dia-a-dia no trabalho, e a piada ganha um conotação de extremo mal gosto.

É incrível como atmosfera gerada em torno de um projeto natimorto reduz todos a recursos, literalmente. Não interessa se você é um desenvolvedor Java Jedi, ou Sith, ou se é só um zé roela, ou ainda se seu gerente é digno do secretariado geral da ONU, ou se não serviria nem para organizar a gôndola de um mercado de bairro. Todos são diariamente liquidificados.

Parece uma conversa de loucos. Você explica para o gestor que o projeto é gigante e que, em condições normais de temperatura e pressão, vai demorar 8 meses. O gestor, além de nem conseguir nem garantir condições sanitárias mínimas, exige que o projeto saia em 2 meses.

O cotidiano é um cenário de terror, um campo de batalha após a passagem de Vlad, o empalador. Não importa que você diga diariamente que está enfeitando cocô, ficará registrado que você fez parte daquela tragédia. Não importa o seu passado, sua linhagem, sua formação, ao frigir dos ovos todos são tão somente degradados filhos de Eva.

SCJP em primeiro plano

N camadas, uma dentro da outra

21/01/2010 por cronicasdeti

Se o mercado de TI fosse a classe das aves, eu seria um urubu. Meu trabalho não é nobre se considerarmos qualquer convenção estética ou poética. Se quando fosse um vestibulando, o resultado de meu teste vocacional descrevesse as atividades que faço hoje, eu sairia no braço com o psicólogo.

Mas, citando Oscar Wilde, a experiência é o nome que damos aos nossos erros, então, do alto do caixote da minha experiência, faço um exercício rotineiro de auto-sugestão onde me convenço que o trabalho do urubu pode ser prosaico, mas garante o sucesso na escala evolutiva, enquanto que a bela e interessantíssima arara azul está ameaçada de extinção.

Essa semana, de novo, tive uma prova de meu argumento. Tive que dar manutenção em um sistema crítico cuja arquitetura foi desastrosamente desenvolvida com N camadas, mas uma dentro da outra. Quando vi aquilo, deu vontade de levantar e ir embora, passar numa loja de atacado de doces, comprar um punhado de guloseimas e vender com uma margem de 150% no metrô, mas logo pensei nos cientistas, engenheiros, doutores que estudam anos para propor padrões e técnicas para melhorar a qualidade das coisas. Tanto esforço, tanta decepção teriam se vissem o que vejo.

Nessas horas coloco-me em meu lugar, sei que tenho que chafurdar no chorume, engolir larvas, mas sei que como poucos posso me permitir vôos calmos e contemplativos.

tá olhando o que?

Segurança da informação

06/01/2010 por cronicasdeti

Está aí outro assunto que é costumeiramente currado pelos bacharéis, engenheiros, diplomatas da TI. Esse é daqueles conceitos que, ou é aplicado totalmente, ou nada feito. Um exemplo bem claro, mas menos digital, foi a fraude no ENEM de 2009.

Esquema cinematográfico de segurança que fora feito para funcionar perfeitamente, só não previram que um Zé Roela entrasse na gráfica e surrupiasse um ÚNICO caderno. E, provavelmente, o escândalo só eclodiu porque a ganância fez com que os criminosos tentassem vender a notícia do vazamento para um repórter por R$ 1 milhão.

Às vezes eu tenho que trabalhar em lugares em que não é permitido o uso de internet e, como eu já venho dizendo desde o início do blog, eu não trabalho em um frigorífico, e sim com tecnologia.

fonte: http://infoseg.wordpress.com/2009/01/21/forma-de-proteger-sua-informacao-fun/

Geralmente nesses lugares os sistemas não são documentados, ou seja, toda a inteligência do negócio está na cabeça de uma, ou algumas, pessoas. Normalmente também essas pessoas são de empresas terceirizadas, como o Zé da prova do ENEM. Muito menos  é proibido o uso de dispositivos portáteis, como notebooks, pen drives, HD externos, etc. Ou seja, se houvesse um mal intencionado, a proibição da internet impediria a quebra na segurança da informação?

O resultado dessa política é um calvário para o programador que não consegue consultar fóruns, manuais e comunidades. O gerente nem consegue enviar e-mail.

O pior é que, via de regra, o processo de desenvolvimento é caótico, os sistemas produzidos ali são viróticos e a informação é armazenada em cafofos de dados. A informação corre mais risco dentro de um bunker desses do que em qualquer outro lugar, mas vai argumentar para ver o que acontece.

Aqui é lugar de trabalho

… o azar é só dele…

05/01/2010 por cronicasdeti

No dia 21/12/2009 este blog completou seu primeiro ano. Esse evento foi tão irrelevante que nem mereceu um post naquele dia. Na verdade, isso só está sendo mencionado para justificar a minha total incompetência em manter um blog atualizado. Imagina se em um ano só haveria assunto para 38 posts!

A boa notícia é que isso quer dizer que continuo me dedicando ao trabalho com TI, já que não fico o tempo todo atualizando o Crônicas de TI, o que por sua vez quer dizer que  haverá assunto por um bom tempo. E outra também, isto é um blog, não um aquário!

zelo total

Desde a adoção em 2001 da tecnologia J2EE…

03/01/2010 por cronicasdeti

“Desde a adoção da tecnologia Java/J2EE in-the-BOX no fim do ano 2000, muitos sistemas foram desenvolvidos e implantados sem seguir corretamente as recomendações da Sun Microsystems e JavaSoft para o desenvolvimento Java…”

Assim se iniciavam todos os relatórios técnicos e manuais escritos pelo colega mais resiliente com o qual trabalhei. Como tudo tem limite, nesse fim-de-ano o ciclo se encerrou. Pelo menos para ele a virada de ano não foi uma mera marca cronológica, mas a morte da esperança, afinal de contas aquela frase surrada da introdução nunca pode ser omitida.

Nessa fase de passagem do meu colega eu escreveria:

“Ao colega com carinho,

Apesar de sua inabalável resignação, tenho que lhe dizer que não há só energia positiva. O universo sempre busca o equilíbrio de forças, fisicamente falando mesmo, e quando uma força sobrepuja outra ocorre um evento. Se você preferir uma metáfora darwinista a uma newtoniana, não há como exterminar as baratas, tudo o que você pode fazer é manter seu ambiente bem asseado para que elas não o incomodem e você mantenha sua dignidade de espécie supostamente dominante.”
tudo é relativo

tudo depende do referencial adotado

Como isto é um blog e não um livro, fica a critério do meu colega usar essa filosofia barata, com duplo sentido, ou não, como prólogo ou epílogo.

Vai encarar?

Sala de guerra ou de aceleração, qual a melhor?

12/12/2009 por cronicasdeti

Não canso de me divertir com os jargões criados em nossa insólita área de TI. A inventividade dos teóricos pode até ser bem intencionada, mas via de regra é distorcida no chão de fábrica.

Os dois últimos conceitos com os quais tenho me deparado reiteradamente são a sala de guerra e a sala de aceleração. Sei que o estereótipo do profissional de tecnologia é o do nerd, geek, cdf, ou qualquer outra gíria para identificar o sociopata que só se entende com livros, internet e vídeo-games, mas os conceitos dessas salas parecem realmente saltar de alguém que gastou no mínimo uma década de sua vida mergulhado em partidas de War ou algum RPG, e tem até hoje seus valores conduzidos pela Força Jedi.

Eu já falei para meus colegas que teria o espírito de porco de, se convocado para uma sala de guerra, alugar uma fantasia de marechal. Fico rindo sozinho me imaginando entrar fardado em uma sala cheia de pessoas com cara de conteúdo, mas não é qualquer farda, é daquelas com franjas na ombreira e com aquele chapelão de Napoleão.

Só estrategista

Ou ainda participar de uma sala de aceleração caracterizado como Han Solo. Aí o coordenador da sala me sentenciaria:

— Temos que executar os 2.000 pontos de função desse projeto em 30 dias. A equipe será formada por você e mais um programador, além do analista de sistemas que estará de prontidão para tirar qualquer dúvida de negócio. O gestor do projeto também estará dedicado a esta sala.

E eu me permitiria uma licença poética, apesar de caracterizado de Han Solo, determinar um comando do Star Trek:

— Salto para dobra 8 em cinco minutos, senhor! Já vislumbro uma luz no horizonte, olha só…

Vista panorâmica da sala de aceleração

Chuta que é macumba

28/08/2009 por cronicasdeti

A empresa para a qual presto consultoria mudou-se de sede nesta semana. O proprietário do local antigo era muito pouco compreensível com a crise financeira alheia e não admitia que o inquilino ficasse inadimplente por quaisquer seis meses.

A alternativa foi achar um lugar mais aconchegante, afinal de contas o lugar antigo tornara-se muito amplo devido à correção de rota imposta pela saúde financeira da empresa. É, devo admitir que correção não foi exatamente o evento que estabeleceu a nova rota, mas vou me permitir usar jargões mais palatáveis para referir-me às situações da empresa.

Mas o que achei mais divertido foi o espiritualismo inerente ao brasileiro que se aflorou nesse processo todo. Acho curioso também, e imagino que esteja impresso em algum gene exclusivamente humano, a busca imediata e reiterada por desculpas. Esses dois fatores juntos, a necessidade de justificativas e a metafísica,  começaram a produzir natural e diversificadamente comentários como:

— Que bom que a gente mudou, aquele lugar tinha uma energia estranha.

— Nossa, o clima lá era tão pesado que ali deve ter sido ser algum cemitério indígena (risos).

Bom, eu sou muito mais mundano e estou convicto que todo o clima que foi gerado ali não foi decorrente de despachos mal intencionados da concorrência em alguma encruzilhada potente como o cebolão, o viaduto que liga as marginais Pinheiros e Tietê e a rodovia Castello Branco na capital paulista.

Será que a boca do sapo é tão elástica que seria possível amarrar ali um cronograma físico-financeiro, ou uma planilha de P&L? Se bem que pelo estado em que chegamos, se eu visse qualquer artefato de gestão financeira ou de projetos por aqui, eu bradaria:

— Chuta que é macumba!

fonte: ivancabral.blogspot.com

fonte: ivancabral.blogspot.com

A extinção dos consultores PJ

08/08/2009 por cronicasdeti

Um fenômeno que tem ocorrido no mercado de software brasileiro recentemente é a extinção dos, até pouco tempo atrás abundantes, consultores PJ, aquela maracutaia onde o empregado abre uma pequena empresa de informática e presta serviço à contratante regularmente das 8:00 às 17:00, com uma hora de almoço, e se faltar na sexta tem descontados também o sábado e domingo.

As grandes fábricas de software estão às voltas com processos no Ministério do Trabalho que começou a atuar mais efetivamente para regularizar as situações trabalhistas nessas empresas.

O Brasil é engraçado mesmo, pois todo mundo sempre soube que esse papo de PJ era o maior passa-moleque das empresas para tentar diminuir os custos da contratação formal. Todo mundo sempre soube que esse artifício é ilegal, e que qualquer processo trabalhista movido contra essas empresas é causa ganha.

Obviamente que o número de processos sempre foi baixo porque a empresa sempre tem a força do capital a seu favor, e poucos empregados se arriscam a mover tais processos sob pena de entrar para uma conspiratória, mas muito plausível, lista negra das empresas.

O fato é que essa situação tem persistido durante anos sob a vista grossa de todo mundo, mas agora começaram a surgir denúncias sorrateiras que têm feito o Ministério do Trabalho atuar como nunca nesses casos, o que tem causado um alvoroço na zona de conforto do mercado de software brasileiro, que se demonstra imaturo e limitado, e quando um tenta pegar a teta onde estava o outro…

Não apela não!

Não apela não!

Luto pela causa

04/07/2009 por cronicasdeti

No liquidificador onde presto consultoria aconteceu uma baixa grave nessa semana. O cara que era responsável por dezenas de sistemas chegou no seu limite. Todos boiamos na bacia das almas há meses e já era esperado que, mais cedo ou mais tarde, algo grave aconteceria.

Cada um de nós tinha algum tipo de fé em que as coisas mudassem em breve, e meu amigo reuniu nossas fezes e as lançou nas pás do nosso liquidificador.

Tentaram mantê-lo calado, não fechando sua boca, mas a mantendo permanentemente aberta com massas odontológicas e sugadores. Não deu certo. A força da mandíbula de um homem médio, apesar de não constar entre as mais potentes do reino animal, ainda equivale ao peso de um saco de cimento e, digamos que meu amigo pode ser considerado um ponto fora da curva.

Abra a boca e nunca feche os olhos

Abra a boca e nunca feche os olhos

Enfim, ao meu amigo, que foi compelido a sair de sua zona de conforto, resta a busca de uma recolocação, coisa que ele vai tirar de letra. A nós, errantes da bacia, resta a partilha da carga de bigornas que ele carregava e, levando em conta que todos já estamos a 115%, é bem provável que haverá muito mais a ser pulverizado em nossa atmosfera, visto que conforto não é propriamente a característica da zona em que vivemos. Aguardemos os próximos acontecimentos.

Quanto tempo!

27/06/2009 por cronicasdeti

Já faz algum tempo que não publico nenhum post e a razão é muito simples, quero continuar evitando usar este blog para desopilar o fígado, e garanto que meu momento profissional tornaria os textos em híbridos de Baudelaire com Reginaldo Rossi, sem a genialidade do primeiro e a popularidade do segundo. Então, vamos a uma passagem amena que me foi lembrada nesta semana.

Eu tenho um colega que é protagonista de fatos históricos. Ele é daquelas figuras sobre as quais você diz: “Não é possível, isso só acontece com ele!”. Pois então, devia ser umas seis da tarde, fim de expediente, e a maioria dos funcionários já tinha ido embora quando tocou o telefone na mesa de um dos ausentes. Meu colega, ingenuamente solícito, levanta-se para atender àquela altura do campeonato sem perceber o risco que ele estava correndo. Eu já estava com o radar calibrado para monitorar a ameaça de bomba quando se inicia o monólogo:

— Tecnologia, OLIVEIRA!

ouviu?

Ele sempre atendia o telefone sforzando.

— Não, ele já foi embora. Só retorna amanhã, a partir das nove da manhã.

hein?!

Cara de surdo em bingo

— Não, eu sou de Java, não vou poder ajudá-lo. Ele é do CICS, e aí é só com ele mesmo.

Mas havia persistência do outro lado da linha.

— Olha, eu posso mandar um e-mail, pois assim que ele chegar fica ciente do recado.

Ih!

Durma com esse barulho

— Bom, para que eu possa ajudá-lo você precisa disponibilizar o código-fonte no repositório oficial, aí então eu dou uma olhada.

Achando que ia se livrar rápido, já que quase ninguém sabia onde era o repositório oficial e muito menos como acessá-lo.

PQP!

Mais contrariado que...

— Filtro Europa?! Não.

Muxoxo.

Fone no gancho.

Dor na minha nuca de tanta gargalhada.

Nem me pergunte, até hoje não faço a mínima idéia de como essa conversa pôde se desenrolar dessa forma.