Quer ajudar? Então assuma essa culpa

01/09/2011

Toda vez que lhe chamarem para dar uma mãozinha numa situação de emergência, pelo menos no universo bizarro da TI, fique sabendo que vão lhe levar o quarto-dianteiro do corpo. Para ilustrar, vou contar uma história que começou a acontecer comigo ontem.

Mãozinha

Existe uma ferramenta muito boa e poderosa para geração de relatórios que se chama Jasper Report. A ideia é que você a use em seu sistema para montar relatórios bonitos e apresentáveis de forma dinâmica com dados que são escolhidos pelo usuário final da aplicação. Funciona assim, o caboclo vai no seu web site, seleciona a lista de bugigangas que ele quiser, e o seu sistema gera um relatório com o que foi selecionado, bem formatadinho, com figura, preço, nome, categoria, e tudo mais que você quiser.

Eu nem fazia parte do projeto, mas diante do fato do cronograma estar brutalmente vilipendiado, a gerente pediu uma mãozinha “só para fazer os relatórios no Jasper”. A minha chefe então me cedeu e eu passei 45 horas de um fim de semana prolongado trabalhando nisso, e olha que nem estou reclamando porque ganhei todas as horas extras, faz parte.

Passado um tempão desde a entrega de todos os relatórios, eis que me requisitam novamente para ajudar num problema que estava ocorrendo com a geração dos relatórios. Veja bem, sutilmente, de quem é a culpa?

O problema é que a fonte tipográfica usada para a confecção do relatório não existia no lugar onde o sistema estava instalado, então havia algumas falhas que desformatavam o resultado final.

Tranquilo! Apesar de eu perder um dia de trabalho só para ir lá no lugar e constatar isso, juntamente com outro colega também requisitado só para ver o chupa-cabra, sugeri, após uma breve consulta na internet, que se empacotasse a fonte tipográfica junto com o sistema.

Boa! Manda outra que o titio aqui resolve...

Legal! Todo mundo feliz, solução encontrada, ponto final e eu posso voltar aos problemas dos meus sistemas, certo? Lógico que não! Eis que chega um questionamento do cliente final do sistema: “Você verificou a licença de uso dessa fonte tipográfica? Você garante que eu não serei processado por usar indevidamente um produto sem que ele tenha sido devidamente adquirido?”

Eu só fiz o relatório!

Oremos…

12/08/2011

Eu juro que tento me policiar para não ser reducionista e estabelecer que o mundo corporativo se divide em duas partes antagônicas e diametralmente opostas: a dos chefes e a dos peões. Faço isso porque a tendência natural é de eu achar que se o cara é chefe, vai querer me ferrar só por força do hábito. Meu colega, o homem ácido, tinha uma teoria de que o cara para ser chefe tem que ser FDP.

CUMPRA-SE!

Bom, o fato é que ultimamente o nível dos chefes tem caído assustadoramente. Antes você ainda encontrava chefes que ferravam por ossos do ofício, mas que você sabia que o cara era legal ou competente e só estava cumprindo o papel dele, então até dava para comprar a briga do cara. Mas ultimamente tem surgido uma classe de janotinhas que fazem qualquer cursinho de PMI, ou coisa que o valha, e entram no mercado para exorcizar suas frustrações, complexos e outros problemas que seriam mais bem tratados em um divã.

Eis que chega um chefe novo, o trakinas, querendo mostrar serviço da pior forma possível, tentando exercer o poder pelo poder, dando ordens sem nenhuma lógica, mudando a galera de lugar só para mostrar que manda, enfim, o supra-sumo do babaca.

BA - BA - CA

O problema é que nessas tentativas autoritárias o cara acaba se perdendo e começa a esbarrar nas suas próprias incompetências. Na ânsia de cumprir as receitas da nobre arte da gerência de projetos, o cara acaba falhando no básico, mas vamos ao que interessa. O trakinas chama um gerente da equipe, veja bem, o trakinas não é qualquer porcaria, é o chefe do chefe. Ele quer discutir a divisão de horas a serem pagas para dois funcionários, ele não está concordando com a conta feita pelo gerente:

— Gil, como você está dividindo essas horas na planilha?!

— É simples traquinas, para um funcionário eu atribuí x/3 horas, e para o outro eu atribuí 2x × 1/3.

— Pô Gil, mas aí não dá. A conta dá diferente, você está misturando multiplicação com divisão!

Gil consternado argumenta…

— É… trakinas, a precedência dessas duas operações são equivalentes. O resultado sempre vai dar igual.

Trakinas posiciona-se no púlpito da sua arrogância:

— Gil, vou mostrar que não, quer ver?

Trakinas abre o Microsoft Excel e coloca uma conta numa célula, e a outra em outra célula, e o resultado é obviamente o mesmo. Não conformado, ele troca de célula, mas tudo ocorre como antes, e então ele sai com a clássica:

— Bom, agora eu tenho que ver outras coisas, depois eu vejo isso…

Acho que o problema de Gil, o gerente, foi se concentrar na explicação das operações, quando a resposta estava no outro termo da expressão.

Pai, dai-me força, eles não sabem o que fazem

 

Homem-ácido

02/08/2011

Sabe quando você se machuca e exatamente a partir desse momento tudo passa a mirar seu machucado? Objetos inanimados como mesa, cadeira, batentes parecem criar vida e a perseguir a sua contusão. Essa maldição perseguiu meu colega, o homem-ácido, justamente por ele ser o cara mais ácido do mundo.

No caso dele, a ferida era a meticulosidade que ele tinha para com seus assuntos, e as quinas de mesa eram a balbúrdia que ocorria nos setores administrativos da empresa em que trabalhávamos.

Que o nosso departamento pessoal parecia um episódio dos três patetas, não era novidade, mas o mais cômico, ou trágico, era que o homem-ácido tratava de seus assuntos como a “Lista de Schindler”, muito, mas muito a sério, e convenhamos, quando se fala do seu salário, seu plano de saúde, seus direitos enfim, qualquer pastelão perde a menor graça.

O departamento pessoal

Certa vez o homem-ácido, cansado de tomar toco no cálculo de salário, horas-extras, e outros itens do seu contracheque, resolveu montar uma planilha para estabelecer um padrão de conta com base na lei e no seu timesheet. Eis que ele envia um e-mail para o departamento pessoal pedindo a fórmula de cálculo do descanso semanal remunerado, que é um cálculo complicado que considera o número de dias do mês, os dias de fim-de-semana que foram trabalhados, etc. A fórmula é mais ou menos assim:

A mulher do departamento pessoal respondeu o e-mail com a reposta:

— 1/6.

In memoriam

29/01/2011

Aos dez dias do primeiro mês do ano de dois mil e onze da era cristã perdi um bom colega. Não posso dizer que fomos grandes amigos, pois tive pouco tempo de convivência no trabalho, e ainda assim em departamentos diferentes. Mas posso dizer que no pouco tempo em que convivemos compartilhávamos a sagrada hora do almoço, aquela hora de paz entre o início da batalha do dia e seu fim melancólico, mas recompensador. E é incrível como essa hora é importante, a ponto de tatuar na minha memória um período de anos.

Esse colega faz parte do caldo de situações cotidianas que venho relatando aqui. Como já disse, este blog não tem pretensão nenhuma, mas é um subterfúgio para perenizar alguns acontecimentos, quase sempre com finais engraçados, mas que têm em sua essência uma certa carga de angústia e frustração, e como esse aspecto é a cara desse meu colega!

Ao Guima, com carinho.

Deliverable

03/01/2011

Em projetos de software, deliverable é algo que se pode entregar. Geralmente refere-se a artefatos que o cliente pode verificar a qualidade, pode ser documento, executável, enfim, algum arquivo ou conjunto de arquivos digitais, afinal estamos falando de desenvolvimento de software. Nasce mais um neologismo estranho, entregável.

Mas uma vez eu entreguei um verdadeiro entregável. Eu, meu sócio e mais um amigo resolvemos encarar um projeto daqueles clássicos que não têm como dar certo, mas desde quando empresa pequena pode se dar ao luxo de escolher projeto?

O projeto era de Curitiba, para uma grande empresa de telefonia. Quem se meteu a desenvolver foi fornecedor de marketing, talvez imaginando que já que já que faziam o web design seria uma apêndice a mais o desenvolvimento do sistema todo. Quando viram o tamanho do problema, resolveram quarterizar o fracasso.

 

é simples

Naturalmente que quando nos procuraram, pintaram uma visão do paraíso, mas não demorou nem uma semana para levantarmos a barraca de lona preta no inferno. Para resumir, pulando todos os problemas bem conhecidos do desenvolvimento, eis que se chega a um ponto onde tínhamos a primeira fase do projeto desenvolvida, e era só entregar o pacote, um simples programa, para o cliente testar em Curitiba. E quem disse que havia alguém capaz de instalar o programa em Curitiba?

Haviam contratado um coitado que tinha a função de apanhar. Disseram que era um profissional qualificado para nos dar apoio e para fazer a interface com o cliente. A interface dele deve estar vermelha até hoje de tanta bofetada que tomou.

 

toma besta

Passadas algumas tentativas de fazer a criatura montar o ambiente e instalar o programa, jogamos a toalha, não dava. Já estávamos sorteando quem iria a Curitiba, trabalhar 30 minutos e voltar, quando surge o cocoordenador do projeto, esse sim um ponto fora da curva da escala evolutiva, mais precisamente o fatídico ponto no muro da curva Tamburello.

A idéia era: “— Vocês peguem essa máquina aqui, instalam o servidor de aplicação, implantem o pacote de vocês e mandem pelo correio que na segunda estará lá.”

Já mandei

Após uma tarde de trabalho, em meio a gargalhadas de vergonha e incredulidade, concluímos o nosso primeiro e único entregável de hardware.

Até que demorou…

04/09/2010

Nessa semana, mais uma vez, a esperança perdeu. Ariex não resistiu e sucumbiu ao reducionismo da gestão baseada em resultados, seja lá qual for o resultado.

Ele foi demitido com a explicação oficial de incompatibilidade de perfil, depois de dois anos de serviços prestados e mal remunerados.

Apesar de não parecer à primeira vista, o tom soturno desse post não é por causa do Ariex, que fez o papel do sapo na água escaldante.

Só de butuca

Ele, a despeito de alguns chamuscados, fatalmente encontrará lagoa nova, agora nós os remanescentes ficamos na lama cada vez mais tórrida, esperando por chuva. Porém se ela não vier…

... e entrei para a história.

Adiantou, está impedido!

15/08/2010

Definitivamente o que mais vale em uma viagem é a jornada, as experiências adquiridas são um tesouro. Nessa semana surgiu mais uma pérola cuspida despretensiosamente por um colega de trabalho, um tipo de vernissage de um mestre renascentista. E o engraçado é que esses momentos justamente acontecem ao cabo de um contexto que parece que foi minuciosamente elaborado para preparar o gran finale.

Eis que eu e outro colega comentávamos sobre um assunto surgido em uma lista de discussão da qual fazemos parte. Pode um profissional de 2 ou 3 anos de experiência ser considerado sênior? Ponderávamos que o que forja o cabra na arte da guerra é o dia-a-dia. O treino é válido, mas o que ocorre no campo de batalha não consta nos manuais.

Passado alguns instantes, estávamos importunando um recruta recém chegado às fileiras da linha frente, um tipo de ritual cruel que ameniza as agruras do cotidiano da tropa, quando a gerente nos interpela em defesa do novato que havia realizado um trabalho sem se sincronizar com a equipe, o que redundaria em esforço adicional:

— Coitado do garoto, ele foi prestativo e quis adiantar o cronograma de trabalho!

E surge em tom meio indignado, meio resignado:

— Cronograma é como um ataque de jogo de futebol, se adiantar, é impedimento.

regra 1

As sonoras gargalhadas que se seguiram foram o “conforme queríamos demonstrar”. O sênior, antes de tudo, tem que ser versado na lida.

Pó pará!

Pare tudo o que você está fazendo

31/03/2010

Pare tudo o que você está fazendo!

Extreme Programming

e vá colocar o supositório no tigre

Vá tranquilo, ele é manso

Resultado:

Culpa sua

liga não.

Viu?!

18/02/2010

Artigo bem legal que sistematiza e dá algum fundamento a tudo que é vomitado aqui.

http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=romantismo-setor-tecnologia-esconde-empregos-precarios&id=5011

Degradados filhos de Eva

06/02/2010

Definitivamente não consigo mais classificar o seriado The Office como comédia. Quando assisto a um episódio, instantânea e naturalmente faço alguma associação como o meu dia-a-dia no trabalho, e a piada ganha um conotação de extremo mal gosto.

É incrível como atmosfera gerada em torno de um projeto natimorto reduz todos a recursos, literalmente. Não interessa se você é um desenvolvedor Java Jedi, ou Sith, ou se é só um zé roela, ou ainda se seu gerente é digno do secretariado geral da ONU, ou se não serviria nem para organizar a gôndola de um mercado de bairro. Todos são diariamente liquidificados.

Parece uma conversa de loucos. Você explica para o gestor que o projeto é gigante e que, em condições normais de temperatura e pressão, vai demorar 8 meses. O gestor, além de nem conseguir garantir condições sanitárias mínimas, exige que o projeto saia em 2 meses.

O cotidiano é um cenário de terror, um campo de batalha após a passagem de Vlad, o empalador. Não importa que você diga diariamente que está enfeitando cocô, ficará registrado que você fez parte daquela tragédia. Não importa o seu passado, sua linhagem, sua formação, ao frigir dos ovos todos são tão somente degradados filhos de Eva.

SCJP em primeiro plano


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