Chuta que é macumba

28/08/2009 por cronicasdeti

A empresa para a qual presto consultoria mudou-se de sede nesta semana. O proprietário do local antigo era muito pouco compreensível com a crise financeira alheia e não admitia que o inquilino ficasse inadimplente por quaisquer seis meses.

A alternativa foi achar um lugar mais aconchegante, afinal de contas o lugar antigo tornara-se muito amplo devido à correção de rota imposta pela saúde financeira da empresa. É, devo admitir que correção não foi exatamente o evento que estabeleceu a nova rota, mas vou me permitir usar jargões mais palatáveis para referir-me às situações da empresa.

Mas o que achei mais divertido foi o espiritualismo inerente ao brasileiro que se aflorou nesse processo todo. Acho curioso também, e imagino que esteja impresso em algum gene exclusivamente humano, a busca imediata e reiterada por desculpas. Esses dois fatores juntos, a necessidade de justificativas e a metafísica,  começaram a produzir natural e diversificadamente comentários como:

— Que bom que a gente mudou, aquele lugar tinha uma energia estranha.

— Nossa, o clima lá era tão pesado que ali deve ter sido ser algum cemitério indígena (risos).

Bom, eu sou muito mais mundano e estou convicto que todo o clima que foi gerado ali não foi decorrente de despachos mal intencionados da concorrência em alguma encruzilhada potente como o cebolão, o viaduto que liga as marginais Pinheiros e Tietê e a rodovia Castello Branco na capital paulista.

Será que a boca do sapo é tão elástica que seria possível amarrar ali um cronograma físico-financeiro, ou uma planilha de P&L? Se bem que pelo estado em que chegamos, se eu visse qualquer artefato de gestão financeira ou de projetos por aqui, eu bradaria:

— Chuta que é macumba!

fonte: ivancabral.blogspot.com

fonte: ivancabral.blogspot.com

A extinção dos consultores PJ

08/08/2009 por cronicasdeti

Um fenômeno que tem ocorrido no mercado de software brasileiro recentemente é a extinção dos, até pouco tempo atrás abundantes, consultores PJ, aquela maracutaia onde o empregado abre uma pequena empresa de informática e presta serviço à contratante regularmente das 8:00 às 17:00, com uma hora de almoço, e se faltar na sexta tem descontados também o sábado e domingo.

As grandes fábricas de software estão às voltas com processos no Ministério do Trabalho que começou a atuar mais efetivamente para regularizar as situações trabalhistas nessas empresas.

O Brasil é engraçado mesmo, pois todo mundo sempre soube que esse papo de PJ era o maior passa-moleque das empresas para tentar diminuir os custos da contratação formal. Todo mundo sempre soube que esse artifício é ilegal, e que qualquer processo trabalhista movido contra essas empresas é causa ganha.

Obviamente que o número de processos sempre foi baixo porque a empresa sempre tem a força do capital a seu favor, e poucos empregados se arriscam a mover tais processos sob pena de entrar para uma conspiratória, mas muito plausível, lista negra das empresas.

O fato é que essa situação tem persistido durante anos sob a vista grossa de todo mundo, mas agora começaram a surgir denúncias sorrateiras que têm feito o Ministério do Trabalho atuar como nunca nesses casos, o que tem causado um alvoroço na zona de conforto do mercado de software brasileiro, que se demonstra imaturo e limitado, e quando um tenta pegar a teta onde estava o outro…

Não apela não!

Não apela não!

Luto pela causa

04/07/2009 por cronicasdeti

No liquidificador onde presto consultoria aconteceu uma baixa grave nessa semana. O cara que era responsável por dezenas de sistemas chegou no seu limite. Todos boiamos na bacia das almas há meses e já era esperado que, mais cedo ou mais tarde, algo grave aconteceria.

Cada um de nós tinha algum tipo de fé em que as coisas mudassem em breve, e meu amigo reuniu nossas fezes e as lançou nas pás do nosso liquidificador.

Tentaram mantê-lo calado, não fechando sua boca, mas a mantendo permanentemente aberta com massas odontológicas e sugadores. Não deu certo. A força da mandíbula de um homem médio, apesar de não constar entre as mais potentes do reino animal, ainda equivale ao peso de um saco de cimento e, digamos que meu amigo pode ser considerado um ponto fora da curva.

Abra a boca e nunca feche os olhos

Abra a boca e nunca feche os olhos

Enfim, ao meu amigo, que foi compelido a sair de sua zona de conforto, resta a busca de uma recolocação, coisa que ele vai tirar de letra. A nós, errantes da bacia, resta a partilha da carga de bigornas que ele carregava e, levando em conta que todos já estamos a 115%, é bem provável que haverá muito mais a ser pulverizado em nossa atmosfera, visto que conforto não é propriamente a característica da zona em que vivemos. Aguardemos os próximos acontecimentos.

Quanto tempo!

27/06/2009 por cronicasdeti

Já faz algum tempo que não publico nenhum post e a razão é muito simples, quero continuar evitando usar este blog para desopilar o fígado, e garanto que meu momento profissional tornaria os textos em híbridos de Baudelaire com Reginaldo Rossi, sem a genialidade do primeiro e a popularidade do segundo. Então, vamos a uma passagem amena que me foi lembrada nesta semana.

Eu tenho um colega que é protagonista de fatos históricos. Ele é daquelas figuras sobre as quais você diz: “Não é possível, isso só acontece com ele!”. Pois então, devia ser umas seis da tarde, fim de expediente, e a maioria dos funcionários já tinha ido embora quando tocou o telefone na mesa de um dos ausentes. Meu colega, ingenuamente solícito, levanta-se para atender àquela altura do campeonato sem perceber o risco que ele estava correndo. Eu já estava com o radar calibrado para monitorar a ameaça de bomba quando se inicia o monólogo:

— Tecnologia, OLIVEIRA!

ouviu?

Ele sempre atendia o telefone sforzando.

— Não, ele já foi embora. Só retorna amanhã, a partir das nove da manhã.

hein?!

Cara de surdo em bingo

— Não, eu sou de Java, não vou poder ajudá-lo. Ele é do CICS, e aí é só com ele mesmo.

Mas havia persistência do outro lado da linha.

— Olha, eu posso mandar um e-mail, pois assim que ele chegar fica ciente do recado.

Ih!

Durma com esse barulho

— Bom, para que eu possa ajudá-lo você precisa disponibilizar o código-fonte no repositório oficial, aí então eu dou uma olhada.

Achando que ia se livrar rápido, já que quase ninguém sabia onde era o repositório oficial e muito menos como acessá-lo.

PQP!

Mais contrariado que...

— Filtro Europa?! Não.

Muxoxo.

Fone no gancho.

Dor na minha nuca de tanta gargalhada.

Nem me pergunte, até hoje não faço a mínima idéia de como essa conversa pôde se desenrolar dessa forma.

Vale o quanto pesa

23/05/2009 por cronicasdeti

Eu tinha um professor de química no cursinho que fazia aquela pegadinha ingênua de criança:  o que pesa mais, 1 kg de lítio, ou 1 kg de ósmio? Claro que todo mundo sabia a resposta, ou seja, ambos pesam a mesma coisa, 1 kg. Era um alento para cada pré-vestibulando da sala, com sua natural autoconfinça em frangalhos. Acertar qualquer resposta já melhorava a média e a horrível sensação de ser uma barata em um galinheiro. Mas aí vinha a crueldade mais valiosa que, também naturalmente, trazia cada aluno de volta para o seu calabouço de insegurança, alertando para que tudo o que sabíamos ainda era muito pouco. E o professor dizia:

— Essa é ridícula mesmo, era só para ver se vocês estavam acordados, até porque essa é uma questão de física e não de química, pois o peso é a aplicação da aceleração da gravidade, que é constante, sobre a massa. O que importa aqui é a densidade dos elementos. Então, os alunos que prestarem a atenção na aula de hoje, nunca passariam a vergonha de hipoteticamente escolherem carregar as 22,5 toneladas de peso de uma simples caixa de leite longa vida de ósmio, ao invés de escolherem o meio quilinho da mesma caixinha de lítio.

Mal sabia eu que essa regra teria sua antítese na minha carreira, não importando a densidade da minha individualidade e, principalmente do meu histórico e lealdade na empresa. Em uma “negociação” compulsória de conversão para CLT, acabei valendo o somente o meu peso.

Quando parece não mais haver inspiração…

09/05/2009 por cronicasdeti

Andei calado pelo simples fato de estar me faltando inspiração para escrever, não que eu seja um literato, e muito menos que escreva obras-primas, mas resolvi evitar desabafar neste blog da forma amarga que vinha fazendo devido às atuais circunstâncias. De lamúrias, imagino que você já esteja cheio e que, provavelmente, já deva ser uma fonte radiante, caso seja um profissional de TI. Bom, chega de enrolar e vamos ao fato tragicômico da semana, trágico para mim que fui o alvo da história, e cômico para você, porque pimenta no olho dos outros é refresco. A localização anatômica do referido olho fica a seu critério e à sua classe.

Prefiro não mencionar onde eu trabalho porque há muitos que me são caros lá, mas abaixo está o mapa do local.

Narnia

Vire à esquerda em Albuquerque

A comunicação entre um surdo-mudo e um cego, na estação da Sé, em uma segunda-feira às seis da tarde em um dia de chuva equatorial é mais simples do que no meu trabalho. Em um lugar assim todos viram vítima e quem pode mais chora menos. Infelizmente eu não posso muito e fui a vítima natural, juntamente com outro otário, digo, profissional que teve que abdicar de algumas horas de sono para entregar uma demanda emergencial que nos fora passada às quatro da tarde. Para ilustrar melhor a criticidade do contexto, a demanda era para ser entregue naquele mesmo dia e o número de horas de sono que tivemos de abrir mão foi 8, já que dia nesse caso vai até a hora que o cliente chegar.

Lá pelas 4 da manhã, um grupo de quero-queros começa a gargalhar no gramado ao lado, é isso mesmo, experimente ouvir esse bicho em uma situação onde você esteja ridiculamente prostrado, você vai se sentir o mais público dos idiotas. Obviamente que isso tudo era obra do torpor de nossa mente, quando as coisas já ficavam muito engraçadas ou muito tristes, ou tudo junto.

Nojento...

Tchan!

Nessa hora de raiva, alegria, angústia, relaxamento, choro e riso, tudo ao mesmo tempo, dei o comando de implantação de uma versão, mas subitamente desconfiei que ela não contivesse a correção que acabáramos de elaborar. Só me sobrou raiva, angústia e ânsia de vômito. Lá em Nárnia, não temos ferramentas de trabalho nem ambiente adequados, é como ter que trocar o pneu de um carro com uma colher e um pato de borracha. Se a versão apresentasse erro, teríamos jogados valiosíssimos 15 minutos, e isso àquela altura do campeonato era como uma farpa entrando na unha do dedinho do pé.

Mas nesse momento, meu colega diz:

— Tenhamos fé, essa versão tem a correção sim, e digo mais…

E proclamou,

— “Teje” tido!

Cinco minutos de gargalhada demente e insana depois, averiguamos que a versão estava correta. Parecia que os deuses da tecnologia conspiravam a nosso favor, mas 2 minutos depois, quando fomos realizar a entrega, o ambiente oficial de implantação entrou em colapso e ficamos até às seis da manhã tentando ressuscitar o servidor, quando finalmente percebemos que a informática não é regida por nada divino, mas por uma besta-fera com TPM, enxaqueca e atacada da gota.

Cada um tem o seu, mas não necessariamente manda nele

18/04/2009 por cronicasdeti

Um colega meu tem um problema relativamente simples, mas que incomoda como poucas coisas na vida, uma hemorróida. Eis que chega um feriado na terça-feira, calendário que ele quer aproveitar para enforcar a segunda e fazer uma pequena cirurgia que lhe devolva a qualidade de vida. Fácil, não é? A resposta é não, pois ele trabalha em um ambiente caótico de uma fábrica de software desorganizada.

O irônico é  que na segunda-feira o cliente da fábrica nem vai dar as caras, e a bagunça interna é tão grande que ninguém vai conseguir produzir nada significativo, mas mesmo assim meu colega foi pressionado a comparecer para adiantar o trabalho. O agravante, porém, é que a demanda de manutenção que é a causa do entrevero foi entregue na sexta-feira, o último dia útil antes da data da cirurgia.

Na discussão com o chefe pelo telefone ouvia-se:

— Mas chefe, eu preciso fazer essa pequena cirurgia! Eu já tinha avisado a coordenadora.

E o chefe falou alguma coisa do outro lado da linha.

— Pergunte para a coordenadora, eu não vou falar!

E o chefe continua insistindo até que…

— Então você quer que eu cancele a cirurgia e venha trabalhar?!

E meu colega desliga o telefone soltando fogo pelas ventas.

— ERA SÓ O QUE ME FALTAVA, AGORA A EMPRESA QUER MANDAR ATÉ NO MEU Θ!!

Deixe-me ver o seu problema

Há que se ter visão corporativa

Sábado de aleluia

11/04/2009 por cronicasdeti

Nada mais oportuno do que um sábado de aleluia, o dia onde é comum externalizarmos o nosso ódio reprimido em um Judas. O meu, vocês já devem saber qual é pelos posts anteriores, o executivo que parece um eliminado do programa “O Aprendiz”.

Como disse anteriormente, a culpa não é só dele, mas também de quem o permitiu zurrar os rumos financeiros do apocalipse, e do outro executivo que o seguiu como um servo fiel quando deveria contestá-lo, mas enfim, ele foi o executor e a alça de mira está nele.

atoo

Parecem no mesmo grau hierárquico?

Você pode até argumentar comigo que é muito mais fácil criticar do que realizar, e eu concordo plenamente, até admito que minhas reclamações podem ser simplistas demais, mas como dita a mais nova linha filosófica do pensamento moderno, cada um no seu quadrado.

Eu sei o que me aconteceria se eu aprovasse uma arquitetura de um sistema que fizesse água em produção. Sei o que passa um desenvolvedor quando tem que tirar leite de pedra para implementar um “simples” requisito que foi vendido sem o menor conhecimento do estado do sistema a ser alterado. Ninguém, muito menos o executivo, quer saber como eu tenho que fazer o meu serviço, devo fazê-lo bem feito por obrigação profissional.

Enfim, cada profissional, em um grau maior ou menor, tem que dar sua cara a tapa, afinal de contas é por essa responsabilidade que ele é pago. E no caso do gênio das finanças em questão…

 

Toma, besta!

Toma, besta!

Não requer prática, e tampouco habilidade

10/04/2009 por cronicasdeti

Não consigo deixar de me surpreender quando deparo com aquelas clássicas e trágicas situações onde um chefe ou executivo se comporta como um macaco em uma loja de louças. Não por eles, que nem têm a capacidade de discernir uma bola de um cachimbo, mas por quem os coloca na posição de decisão.

 

quando recebeu os resultados financeiros de suas decisões

quando recebeu os resultados financeiros de sua jogada de mestre

Eu me lembro de uma ocasião na qual perguntei ao meu avô por que deveríamos confiar que o motorista do ônibus no qual viajávamos à noite teria a habilidade necessária para nos conduzir em segurança ao nosso destino, a ponto de podermos dormir sossegadamente. Meu avô respondeu sábia e realisticamente que na verdade não tínhamos como ter segurança total, mas que estávamos constantemente expostos a todo tipo de risco, como no caso do padeiro que faz nosso pão sem veneno, e que nesse caso o risco era dos menores, pois pelo menos o motorista manipulava um volante e não uma caneta. Quisera eu hoje ter o poder de laurear meu avô por seus sábios ensinamentos.

O inusitado é constatar que quanto mais baixo na hierarquia é o cargo, mais zelo se tem na admissão do profissional. O faxineiro tem seu trabalho rigidamente monitorado e tem que demonstrar sua habilidade em seu período de experiência. O programador começa trainee, algo entre os reinos monera e protista, depois passa a júnior, pleno e, finalmente sênior, quando atinge sua maturidade e pode ser facilmente reconhecido por sinais claros como gastrite crônica, calvície e TOC.

 

quem vendeu esse projeto?!

quem vendeu esse projeto?!

Porém, quanto mais alto e administrativo o cargo, menos se avalia as habilidades e mais se considera a carta de apresentação, onde tudo se pode escrever e cuja subjetividade é facilmente manipulada por depoimentos tendenciosos de camaradas. Aí, frases soltas como: “Participei da reestruturação da empresa Divirta-seComSeuNegócio LTDA”; transmitem a revolucionária idéia de mudança de rumo, que geralmente é para o fundo.

 

dando nova cara à empresa

dando nova cara à empresa

Ó a xepa madame!

10/04/2009 por cronicasdeti

Tá barato! 25% de desconto! Pagou, levou!

 

É pra levar

É pra levar

Está achando que eu estou falando de feira ou de qualquer saldão? Negativo meu senhor, minha senhora! Aqui é coisa fina, realizamos serviços especializados de tecnologia. Fazemos desde suporte avançado a gerência de projetos. Consertamos aquele seu projeto que saiu por uma pechincha e que, por isso, nunca funcionou direito.

Tá precisando de dedicação total? Tá na mão! Trabalhamos sábados, domingos e feriados a um custo muito baixo, pois o senhor, ou a senhora, nem precisa pagar os direitos trabalhistas.

Pagando bem, que mal tem? Isso é coisa do passado! Com a gente é assim, pagou, levou! É qualidade para a satisfação total do cliente.

Vamu levá! Vamu levá!